Análise na mancha negra constatou a semelhança com a composição da areia de Guarapari
Manchas escuras encontradas nas areias da Praia de Camburi, em Vitória, revelam um conteúdo surpreendente, cuja causa ainda é desconhecida pelas autoridades públicas: presença de substâncias radioativas - fosfato de tório e fosfato de urânio - em nível dez vezes superior ao tolerado. E essas substâncias, as mesmas que garantem a fama internacional das areias monazíticas da Praia da Areia Preta, em Guarapari, também foram identificadas em caranguejos de Camburi.A areia foi submetida à contagem radioativa por meio de um contador Geiger-Müller (aparelho que mede radiações). Próximo ao segundo píer de Camburi, na Mata da Praia, a contagem foi de 1.8 microSv/hora (sievert ou Sv é a unidade que mede o dano humano causado pela radiação). Já na área da estátua de Iemanjá a medida foi de 2.0 micro Sv/h. Nas amostras de caranguejos, foi identificado 0.6 micro Sv/h, três vezes mais do que o permitido pela Comissão Nacional de Energia Nuclear.
Tecnicamente, para que não haja dano à saúde, a emissão deve ser de 0,2 microSv/h, mas o físico nuclear e professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) Marcos Tadeu Orlando, que identificou existência de areia monazítica em Camburi, explica que, na praia, a radiação só representaria risco em caso de exposição direta à areia, todos os dias do ano e por muitas horas.
O pesquisador também observou a areia escura em um terceiro ponto, em frente ao cruzamento da Rua Eugenílio Ramos com a Avenida Dante Michelini, mas nesse local não foi feita a medição. Os pontos radioativos movimentam-se de acordo com as marés, durante o ano, e estendem-se para dentro do mar até uma distância aproximada de 25 metros.
A pesquisa do físico Marcos Orlando foi iniciada em 2008 e ainda avalia impactos ambientais da descoberta.
Maior emissão do Estado está em Guarapari
No Espírito Santo, o maior nível de radioatividade foi identificado pelo físico Marcos Tadeu Orlando na Praia da Areia Preta, em Guarapari: 2.7 micro Sv/hora, 13,5 vezes mais do que é possível uma pessoa receber sem dano à saúde. O físico lembra que quem se expõe a vários exames de raio-X ou tomografia computadorizada por ano também recebe dosagem excessiva. E explica que até mesmo rochas e a areia de praia que não é preta emitem radioatividade, porque os materiais liberam radônio, gás radioativo. Mas o professor da Ufes deixa claro que a radiação reduz 100 vezes a cada dez metros de afastamento da fonte de emissão.
Bronzeado é o que importa
Há um ano a cuidadora de idosos Dayany Arnholz, 21, saiu de Itaguaçu, no interior do Espírito Santo, e passou a morar na Mata da Praia, bairro nobre localizado próximo à Praia de Camburi, em Vitória. Uma vez por semana, Dayany vai à praia, onde só toma sol para ficar com o corpo bronzeado - ela admite não gostar de dar mergulhos no mar. Mas, mesmo deitada sobre uma das manchas escuras da areia da praia, ela não demonstra nem curiosidade e nem preocupação em relação ao fato de, naquela região, ter sido descoberta presença de substâncias radioativas. "Sempre achei que a areia preta era normal, apesar de nunca ter visto algo igual em outro lugar", diz Dayany, que não planeja deixar de frequentar a Praia de Camburi.
Vale já havia constatado a presença
A Vale, uma das duas grandes empresas instaladas bem próximo à Praia de Camburi, em Vitória - a outra é a Arcelor Mittal Tubarão -, sabia da existência de areia monazítica em Camburi, a partir de análises feitas para seu monitoramento ambiental.
A empresa garante que informou às autoridades competentes que estudos feitos por ela mostram que "a coloração escura do material tem origem natural, característica de areias monazíticas".
Mas a mesma Vale faz questão de informar que não há indicativos de que o material encontrado nas areias de Camburi seja proveniente de suas antigas operações na Ponta de Tubarão.
Já o gerente de Meio Ambiente da Arcelor Mittal Tubarão, Guilherme Correa Abreu, se disse surpreso com a informação sobre material radioativo na areia de Camburi. Segundo ele, na siderurgia não há evidência de tório e urânio.
Iema vai discutir as causas da mancha
Representantes do Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema) e da Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura de Vitória reúnem-se em abril para discutir as causas do aparecimento das manchas pretas na Praia de Camburi, em Vitória. Os dois órgãos garantem desconhecer estudos que comprovem a presença de radiação naquela área.
Em janeiro deste ano, após coletar material numa mancha que surgiu na praia, o Iema diz que identificou a presença de ferro, sílica e substâncias orgânicas, além de pequenas quantidades de potássio, iodo e sódio.
Segundo o órgão ambiental estadual, todos esses elementos são encontrados naturalmente na areia da praia.
O Iema garante que lançamentos do Sistema de Tratamento de Efluentes da Vale - que só ocorrem período de muitas chuvas - obedecem aos padrões estabelecidos por lei. Já a Arcellor Mittal não realiza lançamento de efluentes na Praia de Camburi.
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